Terapias modernas: como prevenir e lidar com o diabetes sem abrir mão do prazer de viver bem. Tratamentos adjuvantes como acupuntura, câmara hiperbárica, curativo a vácuo, entre outros.
O diabetes mellitus, uma das doenças crônicas mais prevalentes no mundo, atinge de forma expressiva a população feminina, sobretudo após a menopausa, quando há alterações hormonais significativas que impactam o metabolismo da glicose e o risco cardiovascular. Em um cenário onde o envelhecimento populacional é crescente e a expectativa de vida da mulher supera a dos homens, entender como manejar o diabetes com foco em longevidade saudável é essencial.
A mulher apresenta particularidades que exigem uma abordagem diferenciada na prevenção e tratamento do diabetes tipo 2. O estrogênio exerce papel protetor contra resistência à insulina e disfunção endotelial, na pós-menopausa, sua queda aumenta o risco de intolerância à glicose e doença cardiovascular. Portanto, gestação, menopausa e envelhecimento têm implicações únicas na fisiologia da mulher, exigindo estratégias dinâmicas e ajustadas ao longo das fases da vida. Transtornos de humor, sobrecarga emocional e dupla jornada de trabalho também podem interferir na adesão ao tratamento e no autocuidado.
O controle do diabetes feminino exige uma escuta sensível, avaliação multidimensional e personalização de condutas. Neste artigo optei por abordar terapias nutricionais, ferramentas digitais e avanços no tratamento medicamentoso do diabetes mellitus tipo 2 que contribuem para qualidade de vida e longevidade feminina. Além disso abordei novidades no manejo de duas complicações temidas pelas pacientes que convivem com o Diabetes: a dor da neuropatia e as feridas nos pés.Termino enfatizando a importância de buscar integrar a saúde física à saúde mental, objetivando não só uma vida longa, mas uma vida que tenha sentido!
Terapia Nutricional:

A terapia nutricional é uma das partes mais desafiadoras do tratamento do Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2), com impacto decisivo na obtenção e na manutenção do controle glicêmico. Independentemente do tempo de diagnóstico da doença, a terapia nutricional deve fazer parte do tratamento do diabetes em todas as suas fases de tratamento.
A terapia nutricional é essencial para a obtenção do bom controle glicêmico e é decisiva para o sucesso da terapia farmacológica, devendo abordar mudanças de estilo de vida, educação alimentar, o controle de peso, especialmente através uma alimentação saudável.
De uma forma geral, a orientação nutricional para o DM2 deve ter como base a alimentação variada e equilibrada. Os objetivos da terapia nutricional são os de atender às necessidades nutricionais, atingir metas glicêmicas, obtenção e manutenção do peso saudável, contribuir para o controle da pressão arterial e do colesterol.
Recomendações Nutricionais
– redução do consumo de bebidas contendo açúcares naturais ou adicionados (sucos e refrigerantes)
– em pessoas com sobrepeso e obesidade a redução do peso corporal em 5% já ajuda a melhorar o controle glicêmico
– restringir carboidratos simples ou refinados de rápida absorção (exemplo: açúcar, doces em geral)
– Ingerir proteínas em todas as refeições (pacientes com doença renal devem receber orientações dos seus médicos)
– evitar alimentos ultraprocessados (ex: bolachas recheadas, nuggets, sorvetes…)
– consumir diariamente frutas, legumes, laticínios desnatados/com baixo teor de gordura, grãos integrais
– uso de pré ou probióticos como adjuvantes para o controle glicêmico NÃO POSSUI evidência científica robusta até o momento. Mais estudos clínicos bem desenhados em humanos são necessários para melhor definição da sua utilidade.
– O uso de suplementos nutricionais como substitutos parciais de refeições PODE SER CONSIDERADO como estratégia nutricional adjuvante para redução de peso em pessoas com pré-diabetes e DM2 que estejam com sobrepeso/obesidade desde que com acompanhamento médico ou de um nutricionista.
Ferramentas digitais:
São plataformas de gerenciamento de cuidados em diabetes, autônomas ou mediadas por profissionais de saúde, com base em websites, aplicativos e smartphones, resultando em melhor padrão de controle glicêmico.
- Telemedicina:
As ferramentas digitais com a telemedicina, tornaram-se alternativas de cuidados, com soluções sendo rapidamente adotadas para assegurar o atendimento remoto.
O atendimento médico a distância pode ser caracterizado por: monitorização remota, interativa em tempo real, armazenamento e envio de dados, por mídias sociais e gamificação por meio de realidade virtual.
– Monitorização remota: é a comunicação assíncrona com aparelhos (glicosímetros, medidores de pressão arterial e aplicativos) capazes de transmitir os resultados do paciente para os profissionais.
– Interativa em tempo real: é a comunicação síncrona (vídeo ou teleconsultas) usando plataformas especiais ou dispositivos multimídia.
– Telemedicina de armazenamento e envio de dados: qualquer sistema de armazenamento e envio de informações que permita transmissão eletrônica segura de dados do paciente para ou entre profissionais de saúde.
– Telemedicina por mídias sociais e gamificação por realidade virtual: conteúdos disponibilizados em websites ou aplicativos com uso de mecânicas e características de jogos com o objetivo de engajar, motivar comportamentos e facilitar o aprendizado sobre saúde de pessoas em situações reais.
- Monitorização contínua de glicose (CGM)
Uma grande novidade na monitorização da glicemia é o CGM, trata-se de um sensor instalado no subcutâneo que captura dados da glicemia e os envia a um aplicativo no smartphone. Permite que a paciente acompanhe em tempo real sua variação glicêmica, sem a necessidade de perfurar o dedo com agulha a todo momento. Além disso os dados armazenados no smartphone são enviados ao seu médico através da nuvem. O FreeStyle Libre 2, recentemente lançado no Brasil, é uma dessas inovações. Equipado com alarmes opcionais e personalizáveis para hipoglicemia, hiperglicemia e perda de sinal, este sensor oferece novas possibilidades para o controle glicêmico em pacientes com diabetes.
Avanços Terapêuticos: Inovação com Foco em Longevidade
A medicina contemporânea oferece ferramentas potentes para controlar o diabetes e proteger a saúde cardiovascular e renal — principais causas de mortalidade na mulher com diabetes.
Os Agonistas do receptor GLP-1 (Wegovy®, Mounjaro®, Saxenda®, Rybelsus®) revolucionaram o tratamento do Diabetes Mellitus do tipo 2 por que melhoram o controle glicêmico com baixo risco de hipoglicemia, promovem perda de peso significativa e têm ação cardioprotetora e nefroprotetora. Mulheres com obesidade e risco cardiovascular elevado são grandes beneficiadas, principalmente na pós-menopausa. Enfatizo que toda medicação deve ser prescrita exclusivamente por médicos.
Outra classe com impacto positivo na longevidade foram os Inibidores de SGLT2 (Forxiga®, Jardiance®), são medicamentos que reduzem a glicose através da urina, sem causar hipoglicemia. Os estudos mostraram que eles diminuem hospitalizações por insuficiência cardíaca e que protegem a função renal de forma independente da glicemia. Os médicos consideram prescrição para mulheres com alto risco cardiovascular, com perda de proteína urinária ou histórico de insuficiência cardíaca.
Cerca de 30% dos pacientes com Diabetes Mellitus tipo 2 vão precisar de insulinoterapia e temos atualmente insulinas análogas ultrarrápidas e basais de última geração que oferecem maior flexibilidade, menor risco de hipoglicemia e melhor controle glicêmico, favorecendo adesão e qualidade de vida.
Manejo de complicações crônicas:
- Curativos para Feridas
Existem poucos dados disponíveis sobre o curativo ideal para úlceras do pé diabético. A escolha do curativo deve ser baseada nas características da ferida, ou seja, localização, presença e grau de inflamação. Apenas um profissional treinado poderá decidir. É importante selecionar curativos que removam o excesso de fluido para evitar inflamação adicional do tecido e danos causados pelo contato prolongado com a ferida ou sua periferia.
De modo geral, os hidrogéis são preferidos para feridas com pouca drenagem exsudativa, enquanto alginatos ou hidrofibras são recomendados para feridas com drenagem intensa.
A oxigenoterapia hiperbárica apresenta resultados clínicos inconsistentes em estudos, embora tenha sido utilizada como terapia adjuvante em úlceras do pé diabético associadas à doença arterial periférica, especialmente quando o tratamento padrão isolado não foi eficaz na cicatrização.

Por outro lado, a oxigenoterapia tópica tem se mostrado uma opção promissora como terapia adjuvante em casos nos quais o cuidado padrão falha – definido como cicatrização inferior a 50% da ferida após quatro semanas – com base em evidências provenientes de estudos clínicos.
A terapia por pressão negativa tem sido amplamente usada como terapia adjuvante no tratamento de feridas complicadas e pós-operatórias no pé diabético nas últimas duas décadas. Diversos ensaios clínicos randomizados bem elaborados sustentam seu uso para melhorar a cicatrização, tanto em amputações parciais quanto em úlceras do pé diabético.
A Associação Americana de Diabetes recomenda portanto o uso de terapia por pressão negativa e oxigenoterapia tópica como opções terapêuticas a serem consideradas em feridas que não respondem ao tratamento padrão.
- Manejo da dor neuropática
Acupuntura ou eletroacupuntura, assim como a terapia de estimulação da medula espinhal (EME) podem ser consideradas como terapias adjuvantes e seguras para pacientes diabéticas com dor neuropática que não respondem ou não toleram os tratamentos medicamentosos convencionais.
No tratamento sintomático da dor neuropática das pacientes com diabetes não recomendamos canabinoides, campo magnético, laser de baixa intensidade e terapia com Reiki por falta de eviências científicas robustas.
Terapias mente-corpo :

Na busca pela longevidade com bem-estar, cada vez mais pacientes e profissionais reconhecem os benefícios das práticas que atuam no corpo e na mente, promovendo equilíbrio e saúde global.
O estresse crônico é um fator de piora em doenças crônicas. Práticas que induzem atenção plena (mindfulness, yoga, meditação) levam a melhora de sintomas depressivos, redução da ansiedade, redução ondas de calor e insônia, sintomas estes que acometem frequentemente mulheres na transição menopausal e pós menopausa.
Viver bem é mais do que viver mais. Para a mulher com diabetes, isso significa manter autonomia, energia, autoestima, desejo e prazer.
É possível comer com sabor e ainda assim controlar o diabetes. Estratégias como culinária funcional e reeducação sem radicalismo, permitem que a paciente desfrute da comida com consciência e leveza.
Atividade física é necessária e pode ser prazerosa. Dança, caminhadas na natureza, musculação, hidroginástica em grupo: todas contribuem para saúde cardiovascular, massa muscular e saúde mental. A paciente deve escolher aquela que se adeque a sua rotina e suas condições de saúde. O importante é entender que a atividade física traz benefícios que vão muito além do controle de peso corporal.
Pouco se comenta, mas o diabetes também pode afetar a função sexual feminina, com impacto na lubrificação e desejo. O cuidado com a saúde íntima deve ser abordado com naturalidade. Terapias hormonais, laser vaginal, psicoterapia e acolhimento profissional devem fazer parte do arsenal terapêutico.
O controle do diabetes na mulher exige mais do que prescrever medicações: é preciso enxergar a mulher em sua complexidade, entender seus ciclos, respeitar sua individualidade e promover estratégias que integrem ciência e cuidado humanizado.
As novas terapias farmacológicas e não farmacológicas, as ferramentas digitais e o cuidado com a saúde mental são caminhos complementares, que se unem em um mesmo propósito: oferecer às mulheres com diabetes a chance de viverem mais e melhor, com vitalidade, autonomia e prazer.
A longevidade feminina com diabetes está ao nosso alcance – desde que cuidemos da mulher como um todo.

Dra. Ana Paula Meireles de Melo
Médica endocrinologista graduada na UFG, titulada pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, mestre em Ciências da Saúde pela UnB, professora nas faculdades de Medicina PUC-Goias e Universidade de Rio Verde.
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