Com crescimento de 32% no mercado e consagração em prêmios globais, os quadrinhos nacionais vivem um fenômeno de profissionalização e resistência criativa, de Goiás para o universo.

A jornada é longa: começou em 1869 com As Aventuras de Nhô-Quim, de Angelo Agostini. De lá para cá, o Brasil não apenas aprendeu a ler quadrinhos, mas passou a ditar tendências. Hoje, a “Nona Arte” brasileira não habita mais apenas as bancas de jornal; ela ocupa as prateleiras de luxo das livrarias, as teses de doutorado nas universidades e o topo dos pódios internacionais.

Segundo dados da Nielsen BookScan, o setor registrou um salto superior a 32% entre 2020 e 2024. Esse “boom” é impulsionado por uma tempestade perfeita: o amadurecimento do financiamento coletivo, a força das redes sociais e uma produção independente que não tem medo de temas complexos.

O Poder da Independência

Para Alysson Drakkar, coordenador de Design Gráfico e Moda da Estácio de Goiás, o segredo da expansão atual está na estrutura do ecossistema.

“Os quadrinhos brasileiros estão se beneficiando de uma cadeia criativa mais estruturada. Plataformas digitais democratizam o acesso e editoras independentes ocupam nichos que antes não existiam”, explica Drakkar.

Essa maturidade reflete na qualidade. Se antes o autor brasileiro dependia das gigantes americanas ou europeias, hoje ele constrói sua base de fãs diretamente. Isso permite que obras com temáticas sociais, políticas e experimentais floresçam com liberdade total.

Da Academia ao Eisner

A legitimidade da HQ também subiu degraus importantes no campo intelectual. Universidades agora tratam os quadrinhos como objeto de estudo sério, preservando a memória e formando novos profissionais.

Mas o reconhecimento mais barulhento vem lá de fora. Em 2025, a brasileira Bilquis Evely conquistou o Eisner Awards, o “Oscar dos Quadrinhos”, reafirmando que o traço nacional é competitivo e inovador.

O Cerrado em Quadrinhos: O Polo Goiano

Se o Brasil vive uma expansão, Goiás é um dos seus motores mais vibrantes. O estado deixou de ser apenas um espectador para se tornar um polo produtor autoral de relevância nacional.

Através de eventos como a GO!HQ e o Artist’s Alley da Campus Party Goiás, o público goiano passou a consumir o que é produzido “em casa”. Nomes locais já circulam com desenvoltura em mesas de debates por todo o país:

  • Cátia Ana: Com a sensibilidade de seu personagem Gatito.
  • Vitor Karrijo: Trazendo a força narrativa de Ícarus.
  • Edgar Franco (Ciberpajé): Referência em experimentação e transmídia.

Um Futuro Sustentável

Alysson Drakkar aponta que o próximo desafio é transformar esse talento em um ciclo econômico e social permanente.

“Vemos autores goianos participando de coletâneas e concorrendo a prêmios importantes. O próximo passo é ampliar políticas de fomento e espaços de exposição”, avalia o docente.

Goiás hoje não apenas desenha; o estado narra sua própria história através de quadros e balões, provando que a criatividade do Centro-Oeste é, literalmente, sem fronteiras.