Onde o corpo é manifesto e o tecido é alma.

Goiânia – O desembarque da coleção ÂNIMA, de Theodora Alexandre, na Casa Thear, após passagens marcantes pela Holanda e Fortaleza, não é apenas um evento de moda. É o ápice de um percurso de internacionalização e diálogo que utiliza o tecido como suporte para histórias de resistência. Sob o título “Lado B (‘B’ de Bonecas)”, a mostra revela que o verdadeiro luxo da marca reside na escuta e na humanidade.

A Origem: Do Silêncio à Continuidade

A gênese de ÂNIMA é profundamente pessoal e coletiva. A coleção nasce atravessada pela memória de Bie, uma presença que, embora ausente fisicamente, convocou a criação através de seu legado de amor e autenticidade. Esse “atravessamento” transformou o luto em gesto de continuidade, impulsionando um projeto que celebra a vida em suas formas mais diversas.

Para viabilizar essa rede de afetos, a colaboração da designer gráfica e artista visual Roberta foi fundamental. Ela atuou como o elo entre a criação e as protagonistas da narrativa, garantindo que a aproximação com as modelos trans e travestis fosse pautada pela verdade e pelo respeito mútuo.

Protagonismo Trans e Travesti: Uma Escolha Consciente

Diferente de abordagens superficiais, ÂNIMA coloca mulheres trans e travestis no centro da narrativa. O projeto afirma que ocupar esses espaços de referência não é um acaso, mas um posicionamento político necessário para combater o silenciamento histórico.

“As meninas que vocês veem aqui não ocupam esse espaço por acaso. Elas são escolha consciente, são presença que transforma, são expressão de valor.”

Processos que Respeitam o Tempo

A sustentabilidade em ÂNIMA vai além do discurso ambiental; trata-se de sustentabilidade humana e técnica. A coleção é um tributo ao:

  • Fazer Manual: Valorização do gesto humano e do cuidado em cada etapa.
  • Tempo da Natureza: Uso de matérias-primas responsáveis que respeitam os ciclos naturais.
  • Trabalho Coletivo: Uma construção a muitas mãos, envolvendo fotógrafos, equipe técnica e parceiros que sustentam o invisível para que o visível se manifeste.

Um Convite ao Sentir

A ocupação na Casa Thear é, acima de tudo, um encontro de corpos e olhares. Entre máscaras, tecidos e o fashion film que documenta essa jornada, a exposição convida o público a não apenas observar as peças, mas a sentir as camadas de memória e afeto que as compõem.

ÂNIMA prova que a moda, quando feita com intenção e coragem, deixa de ser apenas sobre o que vestimos para se tornar o que somos e o que insistimos em ser.

“Aqui, a estética não é apenas visual, é posicionamento. Cada criação carrega o peso de histórias atravessadas e a leveza de quem resiste e reinventa.”

A narrativa de ÂNIMA transita entre o material e o imaterial, explorando a “contra-forma” do corpo e convidando o espectador a enxergar o que existe além da superfície do tecido.

Diálogo Visual e Multimídia

Para materializar esse manifesto, a mostra reúne um acervo robusto de linguagens artísticas:

  • Fotografia: O registro de 16 modelos, eternizados pelas lentes de quatro fotógrafos distintos.
  • Audiovisual: A exibição de um fashion film que explora o movimento e a liberdade de expressão.
  • Simbolismo: O uso de máscaras e gestos que provocam a indústria da moda a assumir um papel mais consciente, inclusivo e, acima de tudo, provocador.

Um Ponto de Virada

A Exposição ÂNIMA na Casa Thear é descrita como um “manifesto silencioso que ecoa alto”. Ao unir moda, identidade e arte, a exposição redesenha caminhos e expande os limites do setor, consolidando-se como um marco necessário para a discussão sobre memória e diversidade no cenário artístico brasileiro.

Em memória de Bié

Bié foi uma voz ativa e incontornável na afirmação dos corpos e existências trans. Militante, atravessou violências estruturais e tensionou normas sustentando o direito de existir com dignidade, desejo e autonomia. Era amorosa em sua presença – um amor firme, que acolhia e também impulsionava movimento. Em um momento decisivo da minha transição, foi escuta e direção. Não compartilhamos o cotidiano, mas há atravessamentos que são profundos o suficiente para transformar uma vida. Esta imagem foi recriada por inteligência artificial como gesto simbólico de permanência. Não substitui sua presença, mas inscreve sua memória neste espaço – como continuidade do que ela abriu no mundo.
Seguimos com o que ela nos deixou: Coragem, Amor e Memória Viva.


Exposição: ÂNIMA – Lado B (‘B’ de Bonecas)

  • Local: Casa Thear, Goiânia
  • Temática: Moda, Identidade e Resistência Trans/Não Binária

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