BRASÍLIA – A saúde mental no ambiente corporativo deixou de ser um tema secundário para se tornar uma obrigação legal e estratégica. Entrou em vigor a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), alterada pela Portaria MTE nº 1.419/2024. A partir de agora, as empresas de todo o país são obrigadas a incluir os riscos psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).
Na prática, fatores como assédio, sobrecarga de trabalho, pressão excessiva por produtividade e estresse crônico saem do campo da subjetividade. Eles passam a integrar formalmente a matriz de riscos das organizações, que deverão apresentar inventários de risco, planos de ação específicos e comprovar o monitoramento contínuo dessas ameaças à saúde mental.
A mudança ocorre em um momento crítico: dados do Ministério da Previdência Social revelam que os afastamentos por ansiedade e depressão cresceram 15%, consolidando-se como a segunda maior causa de licenças médicas no Brasil, atrás apenas dos problemas de coluna.
Impacto estrutural no setor de serviços
Para Rousilene Melo, superintendente do Instituto de Apoio aos Funcionários ativos do Setor de Terceirização de Mão de Obra (Iafas), a nova diretriz representa um marco histórico, especialmente para setores com alta carga operacional, como asseio, conservação e segurança privada.
“A nova NR-1 representa um avanço significativo na proteção do trabalhador. Antes, a saúde mental muitas vezes era tratada de forma informal ou reativa. Com a exigência da norma, ela passa a ser uma responsabilidade institucional e estratégica”, destaca a superintendente.
Melo aponta que o grande desafio das empresas do setor de serviços será ir além do cumprimento burocrático, transformando a cultura organizacional. “O desafio agora é antecipar problemas antes que eles afetem a saúde e a produtividade, criando uma cultura de cuidado contínuo”, reforça.
Os principais desafios para a conformidade
Apesar do avanço regulatório, especialistas apontam que o mercado ainda enfrenta barreiras para implementar as exigências de forma prática. Entre os principais obstáculos mapeados pelo setor estão:
- Dificuldade em identificar os sinais precoces de adoecimento emocional nas equipes;
- Falta de integração real entre as políticas de Recursos Humanos e a Segurança do Trabalho;
- Culturas organizacionais ainda muito pautadas na alta pressão por resultados rápidos.
Para mitigar esses problemas, o mercado tem recorrido a ferramentas de suporte especializado, como o mapeamento de riscos e programas de acolhimento emocional.
Suporte e transição para o novo modelo
Diante do novo cenário, o papel de órgãos de apoio e consultorias tornou-se fundamental para guiar o empresariado. O Iafas, por exemplo, informou que está atuando ativamente como parceiro estratégico das empresas do setor de terceirização por meio do seu Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho (SESMT) Compartilhado/Coletivo.
A instituição oferece orientação técnica para o desenho dos novos inventários de risco e capacitação de equipes. O objetivo é garantir que a gestão dos riscos psicossociais cumpra a lei e, simultaneamente, ajude a reduzir os índices de absenteísmo, promovendo ambientes corporativos mais saudáveis e eficientes.

