Como um Fusca vendido em 1977 transformou-se no coração literário da capital, resistindo à era digital pelo afeto, pela poesia urbana e pela força de uma mulher pioneira.
Por Maianí Gontijo e Anna Morais
Quem caminha pelas ruas apressadas do Setor Campinas de Goiânia pode não perceber que, atrás de uma fachada repleta de memórias, pulsa o coração do sebo mais antigo da capital. Ao cruzar a metrópole, o ritmo frenético é abruptamente substituído pelo aroma nostálgico de páginas amareladas, pelo som estalado de discos de vinil e pelo calor de um café recém-passado. No centro desse ecossistema cultural está Rose Camargo, uma mulher cuja trajetória se funde à própria história da literatura goiana.
Recebendo a reportagem da Revista Bora de braços abertos e sorriso largo, Rose personifica a resistência de um modelo de negócio que vai muito além do comércio: é um refúgio de afeto e cultura. Mais do que livros usados, artesanatos, fotografias e relíquias, o espaço funciona como um verdadeiro centro cultural independente que pulsa sob o comando de sua fundadora desde o final da década de 1970.

O começo de tudo: do Fusca ao acervo histórico
A história da livraria confunde-se com a emancipação de Rose como profissional e empreendedora em uma época em que o mercado literário era majoritariamente dominado por homens. “O amor pelos livros vem desde a infância”, relembra com doçura. “Minha mãe trabalhou para uma família tradicional em Goiânia, os Otávio Domingos Borges. Eu não tinha dinheiro para comprar livros, mas nas minhas férias eu tinha acesso à biblioteca deles. Lia de tudo. Ali descobri o mundo.”

Na juventude, Rose já frequentava os sebos pioneiros da cidade, como o lendário espaço no número 55, e logo começou a trabalhar com Edgar Silva, uma figura icônica dos livros usados nos anos 1970. A virada de sua vida aconteceu em 1977, logo após o seu casamento. Edgar, enxergando o potencial e a paixão inabalável da jovem leitora, fez uma proposta ousada ao recém-casado marido de Rose: “Vende o Fusquinha e eu te ajudo a montar uma livraria”.
O conselho foi seguido. O carro da família foi vendido e, com aquele modesto capital, Edgar ajudou a garimpar os primeiros fundos de estoque de editoras e lotes em residências. Nascia ali, em 1977, o estabelecimento que viria a se tornar o sebo mais antigo e resiliente de Goiânia. “Foi aberta com o dinheirinho do Fusca. O que me motiva até hoje é o fascínio. É amor mesmo!”, emociona-se a livreira.
O espaço nasceu de uma necessidade de partilhar esse amor com as pessoas, de criar um ambiente onde o livro não fosse apenas um objeto comercial, mas uma ponte de afeto, de encontro.
Rose Camargo

A metamorfose do mercado e a resistência feminina
Manter as portas abertas por quase meio século exigiu de Rose uma visão de negócios aguçada e uma imensa capacidade de adaptação. Ela testemunhou décadas de transformações socioeconômicas. Nos anos 80 e 90, o movimento era intenso e o perfil dos clientes, universal. “Antigamente todo mundo comprava livro: o rico, o pobre, a classe média. Tínhamos mais funcionários e a safra de final de ano era excelente para todos”, recorda.
Com a virada do milênio, vieram as políticas governamentais de doação de livros didáticos e, logo em seguida, a revolução tecnológica dos smartphones e tablets. Para muitos negócios tradicionais, foi o fim. Para Rose, foi o momento de reafirmar o diferencial do sebo: a experiência humana.
Ela conta, divertida, como costuma desafiar os clientes nostálgicos que entram na loja dizendo que “antigamente liam muito”. Rose questiona se eles possuem celulares ou tablets. Diante da resposta afirmativa, ela pontua cirurgicamente: “Então é por isso que você não lê mais. O aparelho te absorve, porque é a novidade”.
No entanto, longe de se render ao pessimismo digital, a sensibilidade empreendedora de Rose detectou um movimento surpreendente nos últimos quatro ou cinco anos: o rejuvenescimento de sua clientela. “Os meus clientes hoje são mais jovens. É a turma desde criança até os 50 anos. Quem já nasceu na época do celular está querendo sair disso, buscando um espaço diferenciado, uma coisa calorosa.”
Cartas, afeto e clientela fiel
A história do sebo é tecida pelas memórias das conexões humanas que Rose estabeleceu ao longo das décadas. Entre as crônicas da loja, ela destaca com carinho a figura de Jofir Silva, um cliente idoso do interior de Minas Gerais que, nos anos 80, mantinha com ela uma transação baseada na mais pura confiança. “Ele não me dava o endereço de casa, apenas o do banco. Eu lia os livros, escrevia cartas resumindo cada obra e mandava para ele. Se ele gostasse, ligava e eu enviava pelos Correios. Ele pagava com cheques que eu precisava ir descontar. Eu guardava cópias de cada carta”, relembra, nostálgica.
Outra lembrança marcante evoca um jovem cliente chamado Mauro, nos anos 90. Após passar por uma delicada cirurgia na coluna, o primeiro passeio que o médico o autorizou a dar não foi ao shopping, à praia ou a um reencontro com amigos. “Ele chegou aqui andando devagarzinho, acompanhado pelo pai. O primeiro passeio dele foi ir à livraria. Isso marca a gente profundamente. A pessoa está dodói e escolhe este lugar para se curar.”

Poesia viva que transborda para as ruas
Rose Camargo não se limitou a guardar a poesia dentro das estantes de madeira de sua loja. Ela sentiu a necessidade de fazê-la transbordar e curar a própria cidade. Nos primórdios dos anos 2000, começou a espalhar banners com frases motivacionais no interior da loja. Em 2005, ao firmar parceria com o artista Sílvio Medeiros, descobriu a força do giz de cera e percebeu o impacto de sua assinatura estética nas pessoas que frequentavam a região.
“Descobri que artista não é só aquele que está na galeria ou na mídia. Qualquer arte pode ser uma arte transformadora para o outro”, afirma Rose. Foi então que ela decidiu levar suas mensagens para o espaço urbano: postes, muros, pontos de ônibus e o interior dos próprios coletivos que levam ao Setor Campinas e no Setor Aeroporto. Inicialmente, utilizava cartolinas grandes fixadas com fita crepe em hospitais infantis e panificadoras. Com o tempo, adotou a sustentabilidade, reutilizando capas de livros descartados e caixas de leite para carregar seus versos cotidianos.

Eu faço isso nos ônibus todos os dias. As pessoas entram na loja dizendo que viram minhas frases pela cidade. Isso faz uma diferença gigante na vida delas… e na minha também”, conta, entre risos que revelam a alma de uma verdadeira ativista cultural.
O olhar feminino e o futuro do papel
Questionada sobre o significado dos livros em sua jornada enquanto mulher, leitora e empresária, Rose revela uma evolução pessoal que acompanha o fortalecimento do próprio feminismo na literatura.
Durante muito tempo, nós líamos mais os homes, porque no passado as mulheres precisavam escrever sob pseudônimos. Mas de uns anos para cá, eu me permiti descobrir e mergulhar na literatura feita por mulheres.
Rose Camargo
Hoje, nomes como Lya Luft, Marina Colasanti, Ieda de Queiroz, a poesia de Roseana Murray e o clássico As Meninas, de Lygia Fagundes Telles, habitam as leituras de cabeceira da livreira. Mas há uma paixão declarada: “Martha Medeiros eu leio todos os dias e repito os livros dela!”, confessa com entusiasmo.
Aos que visitam o sebo, Rose deixa um conselho que serve de manifesto para os tempos modernos: “Leiam poemas, contos, crônicas. Escrevam, escutem. Quando você fala, lê e escreve, a palavra mágica ganha um sentido e fica guardada na memória”.
Entre as páginas gastas pelo tempo e os cartazes espalhados pelos ônibus de Goiânia, Rose Camargo segue escrevendo o capítulo mais bonito da história cultural da cidade: aquele onde o empreendedorismo feminino se veste de poesia para provar que, na costura da vida, o afeto nunca fica obsoleto.


