O desaparecimento de uma criança ou adolescente é uma das mais profundas fraturas sociais que podem existir. Mais do que um problema de segurança pública, trata-se de um drama humano que atravessa famílias, comunidades e instituições, deixando marcas difíceis de reparar. Quando uma criança desaparece, não desaparece apenas uma pessoa: rompe-se a rotina de um lar, interrompe-se uma infância e instala-se uma dor permanente, silenciosa e devastadora.
A dor da busca não possui contornos definidos. Não é o luto encerrado pela certeza da despedida, mas a tortura contínua da dúvida. É o quarto que permanece intacto, o prato que deixa de ser servido, o telefone que nunca toca com a notícia esperada. A cada amanhecer, uma pergunta insiste em sobreviver:
“Onde está você?”
Nesse cenário de angústia, o silêncio, a burocracia e a indiferença tornam-se inimigos tão cruéis quanto o próprio desaparecimento. A resolução desses casos e a sobrevivência emocional das famílias depende diretamente da mobilização coletiva, da circulação eficiente de informações e da capacidade de aproximar sociedade e poder público, superando falhas que ainda isolam quem sofre de quem poderia ajudar.
25 de Maio: um dia de alerta e consciência

Neste 25 de maio, Dia Internacional das Crianças Desaparecidas, não há espaço para comemorações. A data existe como um grito de alerta e um chamado urgente à ação. É um dia para lembrar que, por trás de cada número, existe uma infância interrompida e uma família consumida pela ausência.
A conscientização não pode ser passiva. Os números revelam a dimensão alarmante do problema. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registra, em média, 216 desaparecimentos por dia. Quando o recorte é direcionado à população infantojuvenil, os dados nacionais apontam que apenas em março de 2026 cerca de 69 crianças e adolescentes desapareceram diariamente, totalizando 2.133 registros em um único mês.
Em Goiás, o histórico dos últimos anos revela uma escalada preocupante:
- 2021: 743 registros
- 2022: 795 registros
- 2023: 814 registros
- 2024: 939 registros
- 2025: 986 registros
- 2026 (até maio): 324 registros

Cada número representa um filho, uma irmã, um neto, uma vida arrancada da convivência familiar. São centenas de lares goianos convivendo diariamente com o vazio e a incerteza.
A dor da busca com nome e sobrenome: o Caso Murilo

Para compreender a dimensão dessa tragédia, Goiás carrega cicatrizes que permanecem abertas até hoje. Entre elas, o Caso Murilo tornou-se um dos episódios mais emblemáticos e dolorosos envolvendo o desaparecimento de menores no estado.
Em 22 de abril de 2005, o estudante Murilo Soares Rodrigues, de apenas 12 anos, desapareceu em Aparecida de Goiânia após o veículo em que pegava carona ser abordado por policiais militares. Testemunhas afirmaram que as vítimas foram levadas pelas autoridades. No dia seguinte, o carro foi encontrado completamente queimado, mas os corpos de Murilo e do motorista jamais foram localizados.
Mesmo após anos de investigações, julgamentos e repercussão nacional, a ausência de respostas definitivas perpetuou a agonia da família. Sua mãe, Maria das Graças, tornou-se símbolo regional de resistência e sofrimento ao declarar publicamente que “não vive, apenas vegeta” sob o peso de possuir uma certidão de óbito sem jamais ter podido sepultar o próprio filho.
O caso evidencia uma verdade dolorosa: o tempo não elimina a necessidade de respostas.
Quando a sociedade e o Estado falham em solucionar um desaparecimento, a dor não termina, ela apenas se prolonga por décadas.
Os gargalos da comunicação e a urgência do engajamento popular
Diante de casos históricos e de milhares de registros atuais, surge uma pergunta inevitável: como a sociedade pode ajudar de forma realmente eficaz?
Hoje, a comunicação oficial sobre pessoas desaparecidas ainda funciona sob a lógica da busca passiva. Plataformas como o Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas (CNPD) e páginas estaduais operam, muitas vezes, como simples repositórios de imagens e informações, dependendo quase exclusivamente da iniciativa casual de terceiros. Além disso, existem obstáculos significativos que dificultam o engajamento da população.
O Alerta Amber: tecnologia contra o tempo

Na tentativa de romper essa passividade, o Brasil implementou, em 2023, o sistema Alerta Amber, um mecanismo internacional voltado à localização de crianças e adolescentes em risco iminente de morte ou lesão grave, outros casos, não se enquadram nestas buscas.
Nos Estados Unidos, o sistema já auxiliou na localização de 1.292 crianças até o fim de 2025. No Brasil, o modelo foi adaptado para funcionar em parceria com as plataformas digitais da Meta, como Facebook e Instagram. Em Goiás, desde sua implementação, não houveram casos que se enquadrassem nos critérios do sistema.
O fluxo funciona da seguinte maneira: após a validação do caso pelo Grupo de Investigação de Desaparecidos (GID) de Goiás, as informações seguem ao Ministério da Justiça, responsável por encaminhar o alerta à Meta. O sistema utiliza geolocalização para exibir fotos e informações do desaparecimento em um raio aproximado de 160 quilômetros do local do sumiço.
Apesar da proposta inovadora, a ferramenta enfrenta limitações importantes. Diferentemente do modelo norte-americano, que envia alertas invasivos diretamente aos celulares, o formato brasileiro depende dos algoritmos das redes sociais, podendo desaparecer rapidamente da linha do tempo dos usuários. Além disso, sua eficácia depende da ativação de permissões de localização nos dispositivos móveis.
O que temos é que esses dados escancaram um abismo inquietante entre o elevado número de desaparecimentos com aumento significante anualmente e a aplicação prática das tecnologias disponíveis.
A “Hora de Ouro” está em nossas mãos
Na busca por crianças desaparecidas, o tempo é um fator brutal. O período inicial após o desaparecimento, pode ser decisivo e amplia muito as chances de localização.
Sabemos que existe, naturalmente, uma tensão entre o tempo da investigação, que muitas vezes exige sigilo, e o tempo da informação, impulsionado pela velocidade das redes sociais e da imprensa. Ainda assim, se a sociedade deseja atuar como rede real de apoio, o engajamento precisa ser imediato. Enquanto ferramentas oficiais enfrentam limitações burocráticas e algorítmicas, a comunidade possui algo que nenhuma tecnologia substitui: capilaridade humana.
Uma fotografia observada atentamente por um motorista no trânsito, um compartilhamento responsável em um grupo de bairro ou o olhar atento de um comerciante podem representar a diferença entre o reencontro e o desaparecimento definitivo.
Precisamos deixar de ser espectadores passivos para nos tornarmos uma rede ativa de proteção.
Divulgar informações com responsabilidade, observar, acolher famílias e denunciar pistas por meio dos canais oficiais, como Disque 100, 197 e 181, pode salvar vidas.
Neste 25 de maio, que o compromisso coletivo seja romper o isolamento que aprisiona mães como a de Murilo, condenadas a esperar por respostas que nunca chegam. Porque o oposto do silêncio não é apenas o barulho: é a união de uma sociedade inteira decidida a trazer seus meninos e meninas de volta para casa.
Artigo elaborado com base na pesquisa “Além do Silêncio: os Desafios para o Engajamento na Comunicação de Pessoas Desaparecidas no Estado de Goiás” (BARBOSA, Anna F. C. M. e MORAIS, Jeorge L. A. B. 2026)

