Por Caroline Dias, psicologa

Todos os dias, recebo em meu consultório mulheres que carregam uma sensação difícil de explicar: estão exaustas, mas não entendem exatamente por quê. São profissionais competentes, mães dedicadas, parceiras presentes, amigas disponíveis. Fazem tudo por todos. E, ainda assim, sentem um vazio crescente, uma ansiedade constante e a impressão de que desapareceram de si mesmas.

O que muitas delas têm em comum é algo que chamo de autocancelamento. Que acontece quando uma pessoa se acostuma tanto a priorizar as necessidades dos outros que deixa de reconhecer as próprias. É quando o “sim” para o outro se transforma em um “não” permanente para si mesma. E isso costuma acontecer de forma silenciosa. Na psicologia também conhecido como a “Síndrome da Boazinha”.

Vejo mulheres responderem mensagens de trabalho fora do expediente para não parecerem desinteressadas. Aceitarem compromissos que não conseguem cumprir por medo de decepcionar alguém. Abrirem mão do descanso, do lazer e até dos próprios sonhos para manter a paz, evitar conflitos ou corresponder às expectativas alheias.

O problema é que toda escolha tem um custo. E, quando dizemos sim para tudo, frequentemente estamos dizendo não para nós mesmas.

Muitas dessas mulheres cresceram ouvindo, direta ou indiretamente, que deveriam ser compreensivas, prestativas, pacientes e agradáveis. Aprenderam que ser boas era quase uma obrigação. O que raramente lhes ensinaram foi que também têm o direito de discordar, recusar, estabelecer limites e priorizar as próprias necessidades sem sentir culpa por isso.

Na prática clínica, observo cada vez mais mulheres emocionalmente exaustas por tentarem sustentar uma imagem de força e disponibilidade permanente. Ansiedade, culpa constante, autocobrança excessiva, irritabilidade, insônia e sensação de invisibilidade estão entre os sinais mais frequentes.

Existe uma crença perigosa de que evitar conflitos é sinônimo de maturidade emocional. Não é.

Muitas vezes, evitar conflitos significa apenas adiar conversas necessárias. Significa engolir desconfortos, acumular ressentimentos e silenciar sentimentos legítimos. A conta, inevitavelmente, chega, e geralmente vem na forma de sofrimento emocional.

Outro aspecto que merece atenção é o medo da rejeição. Algumas mulheres sentem culpa apenas por imaginar que podem decepcionar alguém. Como se impor limites significasse deixar de ser amada, valorizada ou aceita. Mas relações saudáveis não são construídas sobre sacrifícios constantes. São construídas sobre respeito mútuo.

Por isso, considero que aprender a dizer não é uma das habilidades mais importantes para a saúde mental.

Dizer não, NÃO é egoísmo!
Dizer não, NÃO é agressividade!
Dizer não, NÃO é falta de amor!

Dizer NÃO é reconhecer que seus limites existem e merecem ser respeitados. É entender que cuidar de si não é abandonar os outros. É apenas deixar de se abandonar.

A assertividade é a capacidade de expressar sentimentos, opiniões e necessidades de forma clara e respeitosa e tem sido uma das maiores ferramentas de transformação que observo na terapia. Quando uma mulher aprende a se posicionar, algo poderoso acontece: ela deixa de viver apenas para atender expectativas externas e passa a construir uma vida mais alinhada aos seus próprios valores.

Talvez desagradar alguém ocasionalmente seja inevitável. O que não deveria ser inevitável é viver desagradando a si mesma todos os dias.

Em um mundo que ainda espera mulheres permanentemente disponíveis, dizer não continua sendo um ato de coragem. Mas também é um ato de liberdade.

E, muitas vezes, é o primeiro passo para reencontrar a própria voz.

Caroline Dias é psicóloga


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