Por Anna Morais e Maiani Gontijo
O cenário dos mercados criativos e das feiras autorais em Goiás não é mais o mesmo. Ele foi ocupado, transformado e agora é liderado por elas. Espaços pulsantes como a Feira das Minas, a Feira da OVG, Encontro de Brechós e a Feira das Mães Empreendedoras deixaram de ser apenas pontos de comércio para se tornarem verdadeiros palcos de revolução, inclusão produtiva e emancipação feminina.

No entanto, com o crescimento desse ecossistema e o aumento da concorrência, o grande desafio da mulher moderna não é apenas começar, mas consolidar. Como transformar a paixão de um evento de final de semana em um negócio sustentável, previsível e capaz de garantir a tão sonhada liberdade financeira a longo prazo?
Para desvendar esse mapa da mina, conversamos com George Gustavo Toledo, gestor do Programa Conexão Financeira do Sebrae Goiás, e com a jovem e inspiradora empreendedora Luana Nazar, mente brilhante por trás da marca Quer Mais Biju. O veredito é claro: o sucesso feminino nos negócios nasce da fusão entre a sensibilidade comercial e o domínio técnico das finanças. É hora de quebrar o tabu sobre dinheiro e investimentos!
Um dos maiores atos de coragem de uma mulher ao empreender é aprender a dar valor ao seu próprio tempo e trabalho. No universo autoral, é comum que a sensibilidade e o amor pelo que se faz gerem dúvidas na hora de cobrar.
O Storytelling como Sustentação
Na outra ponta, entra o valor imaterial. Para que o preço seja percebido como justo, o cliente na feira precisa enxergar o processo de criação. É onde o storytelling (a arte de contar histórias) se faz indispensável.
”Quem compra economia criativa quer levar uma história para casa, e é essa história que sustenta um preço justo e competitivo”, afirma George.

Para o gestor, o sucesso do negócio depende de compreender a diferença entre o price maker (preço baseado nos custos internos da operação) e o price taker (preço baseado no valor percebido e no mercado). Ao cruzar a realidade dos seus custos com o valor de mercado de peças similares, o empreendedor passa a ter uma visão clara e segura do preço ideal a praticar.
Donas do Seu tempo
O erro mais clássico de quem está começando é esquecer de calcular o preço da sua própria hora de trabalho. Mulher, o seu tempo é valioso! A regra de ouro é definir um pró-labore (o seu salário de patroa) e embuti-lo no custo final.
Para sustentar um preço justo e blindado contra pechinchas, o segredo é o storytelling: encante o cliente com o conceito, o design e a exclusividade da sua marca. Quando você domina a estratégia de preços, você assume o controle do seu lucro.

O Método dos 33%: Rompendo o Ciclo do Reinvestimento Infinito
Muitas mulheres caem na armadilha cultural de achar que todo o dinheiro que entra no caixa deve ser imediatamente reinvestido em estoque. Isso apaga a percepção de ganho real e adia o crescimento patrimonial da empresária.
Para mudar esse jogo, Luana Nazar criou uma metodologia simples e poderosa para blindar sua autonomia financeira:

“Como eu já trabalho com essa divisão em três partes, isso me dá clareza. Eu sei exatamente o quanto posso reinvestir no negócio e o quanto precisa ser guardado ou destinado para mim. Assim, evito colocar tudo de volta no estoque e esquecer do meu crescimento pessoal”, revela Luana, com o orgulho de quem comanda o próprio destino.
Derrubando as Barreiras da Sazonalidade: Da Calçada para o Mundo
Depender apenas do clima e do movimento das ruas é um risco alto para quem chefia uma família ou lidera o próprio negócio. Uma chuva inesperada não pode arruinar o planejamento de uma empreendedora determinada. Diante disso, a omnicanalidade, a integração entre o ambiente físico e o digital, deixa de ser um diferencial e passa a ser uma estratégia de sobrevivência e estabilidade.
Para alcançar a estabilidade, o Sebrae recomenda quatro passos estratégicos que unem disciplina financeira e visão de mercado:
• Separação Absoluta: O bolso da empresa e o bolso pessoal não são o mesmo. Contas bancárias separadas já!
• Reserva Blindada: Criar um fundo que cubra de 3 a 6 meses dos custos fixos da empresa. Exemplo disso é a expositora Luana, que adota uma tática infalível: faça chuva ou faça sol, ela guarda rigorosamente R$ 100 por feira. “O importante é criar o hábito, não o valor em si”, defende.
• Planejamento de Calendário: Usar o faturamento dos meses de alta para proteger os períodos de calmaria.
• A Feira como Vitrine: Usar o calor do olho no olho na barraca física para atrair clientes para o ecossistema digital.
Ninguém Vence Só: A Importância da Rede de Apoio e da Formalização
A jornada rumo ao topo não precisa, e nem deve, ser solitária. Para que uma mulher possa criar, inovar e gerenciar, o apoio de pessoas próximas, familiares e parceiros é fundamental. Dividir as tarefas domésticas, o cuidado com os filhos e receber incentivo emocional são os combustíveis invisíveis que permitem que essas mulheres foquem na expansão de suas empresas. O sucesso de uma mulher é o sucesso de toda a comunidade ao seu redor.

Para as mulheres, o ato de se formalizar como Microempreendedor Individual (MEI) representa a conquista da autonomia jurídica e financeira. Deixar a informalidade assegura direitos previdenciários essenciais, como o salário-maternidade e o auxílio-doença, além de transformar a profissional autônoma em uma empresa de fato, com capacidade de emitir notas fiscais e abrir contas corporativas.
“Hoje eu sou MEI e mantenho tudo organizado, pagando meus impostos corretamente. Além disso, construo uma reserva particular pensando no longo prazo”, compartilha Luana.
Segundo George Gustavo Toledo, a organização jurídica e a formalização são os principais vetores para que o empreendedorismo feminino acesse mercados robustos. Com um CNPJ estruturado, a empresária rompe as barreiras do mercado de crédito tradicional e ganha acesso a linhas de microcrédito orientado com taxas de juros significativamente menores do que as praticadas para pessoas físicas. Além disso, a formalização habilita as mulheres a inscreverem suas marcas em editais de fomento à cultura, rodadas de negócios de grande porte e feiras comerciais de âmbito nacional, consolidando o empreendedorismo como um caminho seguro para a emancipação econômica.
O recado das feiras de Goiás é claro: o empreendedorismo feminino não é apenas sobre vender produtos; é sobre conquistar espaços, liderar conversas, apoiar umas às outras e construir uma independência financeira inabalável.


