Estudo da jornalista Sara Almeida Campos resgata o pioneirismo de Maria Portela Veloso e das produtoras de Valença do Piauí

Suco clarificado de caju que é símbolo do Piauí, a cajuína carrega em sua essência a história, a identidade e a iniciativa das mulheres rurais do estado — que hoje representam 30% dos projetos de beneficiamento apresentados à Secretaria de Agricultura Familiar (SAF). A importância das mulheres rurais valencianas será o foco da palestra da jornalista e pesquisadora Sara Almeida Campos, da Universidade de Brasília (UnB) durante o Festival da Cajuína, no dia 18 de junho (quinta-feira), às 10h20, no palco de palestras do Riverside Shopping, com entrada franca.
No evento, Sara apresenta os desdobramentos de sua pesquisa de mestrado, intitulada “Quê que há?: Visibilidade de Mulheres na Feitura da Cajuína Artesanal em Valença do Piauí”. O trabalho lança luz sobre o universo das trabalhadoras que ela chama de “artesãs da cajuína” no município de Valença do Piauí e propõe um registro de memória de Maria Portela Veloso, também chamada de Dona Maricas, pioneira que criou a primeira cajuína rotulada e a comercializou a bebida para estados como Pernambuco, São Paulo e Rio de Janeiro no início do século 20.
Além de resgatar imagens históricas, como o primeiro rótulo de cajuína impresso no Brasil, a apresentação detalha o caminho percorrido para transformar a bebida de DNA piauiense em Patrimônio Imaterial Brasileiro em 2014. Para realizar o estudo, a pesquisadora conduziu 17 entrevistas, incluindo conversas com Dóris Veloso Mendes e Solange Portela, netas de Dona Maricas, e com a pesquisadora Maria do Carmo Velloso, antropóloga da equipe que elaborou o dossiê de tombamento da cajuína como patrimônio imaterial brasileiro pelo Iphan em 2014.
O pioneirismo de Dona Maricas e sua teia de mulheres
A trajetória de Dona Maricas simboliza o início de uma história de emancipação e liderança que se reflete até hoje nos quintais produtivos de Valença do Piauí. O estudo percorre essa linha do tempo, mostrando a influência da bebida indígena cauim no surgimento da cajuína e como o ritual de preparo — da colheita ao envase — tornou-se uma prática comunitária que resiste ao tempo e estreita laços. No município, o ofício continua sendo tradicionalmente liderado por mulheres, que transmitem o segredo do ponto e da cor da bebida de geração em geração.
“A cajuína é um substantivo feminino. Ela representa um compartilhamento de um saber-fazer entre mulheres e é justamente o que mantém essa tradição pulsante”, aponta Sara. “Apesar desta inegável contribuição, muitas delas ainda não se enxergam como as protagonistas que são. Visibilizar o pioneirismo de Dona Maricas e o ofício das artesãs da cajuína é reconhecer o valor cultural e territorial de Valença do Piauí e suas mulheres.”
Sobre a pesquisa
O estudo é resultado de um trabalho de campo e pesquisa documental realizado no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural (PPG-Mader) da Universidade de Brasília (UnB).
Sobre a pesquisadora
Sara Almeida Campos é jornalista, mestre em Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural pela UnB e coordenadora da Agência Cajuí. Especialista em comunicação socioambiental, dedica sua atuação profissional e acadêmica à conservação dos biomas brasileiros, fortalecimento das mulheres rurais e salvaguarda do patrimônio imaterial.

