Por Anna Letícia Epaminondas
Há muito tempo que o futebol feminino deixou de ser uma modalidade proibida por lei para se consolidar como um espetáculo de técnica, resiliência e paixão global. No Brasil, essa trajetória ganha contornos de drama e superação, moldada por atletas que transformaram o preconceito em recordes históricos. No centro dessa revolução está a Seleção Brasileira e a maior figura que o esporte já produziu: Marta Vieira da Silva.
A Seleção Brasileira Feminina: Resistência e Identidade

Por quase quatro décadas (entre 1941 e 1979), as mulheres foram proibidas por lei de praticar futebol no Brasil, sob o pretexto de que o esporte feria a “natureza feminina”. Quando a proibição caiu, a Seleção Brasileira Feminina precisou nascer do improviso para, gradativamente, conquistar o mundo.
A “Canarinho” feminina construiu uma identidade marcada pela ginga, criatividade e união. Apesar do histórico déficit de investimento estrutural em comparação ao futebol masculino, a equipe conquistou:
– Duas medalhas de prata olímpicas (Atenas 2004 e Pequim 2008).
– Um vice-campeonato mundial (China 2007).
– Múltiplos títulos da Copa América, mantendo a soberania absoluta no continente.
Mais do que taças, a Seleção transformou-se em uma plataforma de luta por igualdade salarial, visibilidade e profissionalização de base, pavimentando o caminho para as próximas gerações.



Marta vs. Os Gigantes: O Peso dos Números

Falar de futebol feminino é falar de Marta. Eleita seis vezes a Melhor Jogadora do Mundo pela FIFA, a camisa 10 transcendeu o gênero e reescreveu os livros de estatísticas do futebol mundial.
Quando comparamos os números de gols da Rainha com as maiores lendas do futebol masculino brasileiro e mundial, a dimensão de seu feito se torna ainda mais impressionante:
A Maior Artilheira da Amarelinha
Com 120 gols marcados pela Seleção Principal, Marta é a maior goleadora da história da Canarinho, superando com folga os 77 gols oficiais de Pelé e Neymar. Ela não é apenas a maior entre as mulheres; ela é a maior entre todos que já vestiram a camisa verde e amarela.

Soberania em Copas do Mundo

O recorde mais emblemático da carreira de Marta foi estabelecido no Mundial de 2019, na França. Ao balançar as redes pela 17ª vez em Copas do Mundo, ela ultrapassou o alemão Miroslav Klose (16 gols) e se isolou como a maior artilheira da história das Copas do Mundo, independentemente de gênero.
“Nenhum homem ou mulher balançou tanto as redes no maior palco do planeta quanto a camisa 10 do Brasil.”
O Legado da Camisa 10
Os gols de Marta carregam um simbolismo que transcende as quatro linhas e vai muito além das redes balançadas. Cada tento anotado pela Rainha funcionou como uma marretada em barreiras invisíveis que, por décadas, tentaram marginalizar as mulheres no esporte. Mais do que estatísticas em Copas do Mundo, suas conquistas foram ferramentas políticas e sociais: elas atraíram patrocinadores outrora reticentes, exigiram a transmissão dos jogos em TV aberta e forçaram as entidades reguladoras a olharem para a modalidade não mais como uma concessão, mas com o respeito e o investimento merecidos.

O capítulo final do futebol feminino brasileiro ainda está longe de ser concluído. Ele continua sendo escrito diariamente por uma nova geração de promessas que cresceu assistindo, vibrando e se espelhando na camisa 10. Se hoje essas jovens atletas encontram gramados melhores, estruturas mais profissionais e um público engajado, é porque Marta pavimentou esse caminho com genialidade e resiliência.
Graças ao pioneirismo da Rainha e à luta histórica da Seleção Brasileira, o futebol feminino não precisa mais pedir licença para existir. Hoje, ele ocupa, por mérito e direito, o seu lugar definitivo na história do esporte mundial.
Fotos: CBF – Confederação Brasileira de Futebol

