
A todo momento, mais uma notícia de crime contra a mulher ganha o feed. Mas esse sangue não escorreu ali; esse é apenas o resultado final. Na era digital, o ódio se espalha em alta velocidade: viraliza, monetiza, e o discurso que precede a violência física já foi amplamente compartilhado, curtido e normalizado bem antes do desfecho trágico.
Essa engrenagem também se faz presente no chão da escola. Na sala de aula, nota-se um discurso aberto: crianças e adolescentes repetem, sem filtro, padrões misóginos que consomem nas telas. É comum professoras relatarem frases e preconceitos que nossos avós nem sempre tinham coragem de verbalizar, mas agora viralizaram e viraram trend. Como bem teorizou Hannah Arendt sobre a banalidade do mal, não estamos lidando com monstros de desenho animado, mas com “meninos e homens comuns”.
A banalização das notícias de feminicídio, os conteúdos que ridicularizam o intelecto feminino e a ascensão de pseudo-psicólogos e “coaches de masculinidade” criam uma atmosfera perigosa que atinge nossas crianças e adolescentes, principalmente . Sob o pretexto de “aconselhar” ou “ajudar”, a real intenção desses discursos é moldar a mulher, silenciá-la e forçá-la a retroceder a um papel de total dependência.
Afinal, o que incomoda tanto no feminino? Não se trata de uma repulsa estética ou biológica; o verdadeiro estopim do ódio é o direito de escolha. Numa sociedade cada vez mais dividida em bolhas digitais, onde algoritmos alimentam o viés de confirmação de homens que não desempenham mais os anseios e expectativas de uma sociedade tradicional e ao deparar-se com um feminino autônomo, que simplesmente diz “não”, tornou-se intolerável. O “não” da mulher moderna desestabiliza estruturas tradicionais e preconcebidas.
É aí que o problema escancara a realidade das escolas, que hoje disputam espaço com as telas dos celulares. Diante de salas de aula que sofrem com um contexto precário e tem sua credibilidade e respeito institucional julgada e condenada por esse mesmo grupo, os jovens encontram no ambiente virtual discursos que soam plausíveis e agradáveis aos ouvidos. Mas não há nada de inocente ali; há muita intencionalidade. Não se trata de mera liberdade de expressão, mas da construção de um caminho que distorce a realidade sob o pretexto de trazer “verdades”, buscando moldar o comportamento da mulher para que ela só exista se for validada e aceita pelo crivo masculino. Diante desse cenário, o debate público não pode mais se dar ao luxo da passividade. É urgente que o clamor da sociedade ecoe, finalmente dando nome ao problema e tipifique essa conduta. A aprovação do Projeto de Lei contra a misoginia não é uma pauta ideológica, mas uma medida de legítima defesa civil, de direitos humanos, de luta pela vida e pela liberdade. Trata-se do instrumento legal necessário para frear a engrenagem que lucra na internet enquanto banaliza a vida das mulheres . Regular e punir o discurso de ódio direcionado ao gênero é o único modo de apagar, de vez, essa lousa de preconceito e garantir que o direito de escolha não seja pago com a própria vida. Caso contrário, não adiantará lamentar depois. Diga sim à vida das mulheres

Vera Cambiatti – é educadora e tradutora com mais de 15 anos de experiência na educação básica e superior, nos setores público e privado. Graduada em Tradução/Interpretação, Letras e Pedagogia, possui MBA em Gestão Escolar pela USP e especialização em Ensino de Língua Inglesa, além de ser pós-graduanda em Políticas e Relações Internacionais pela FAAP. Certificada por Cambridge e Bridge, atua no ensino de inglês (geral, negócios e proficiência), língua portuguesa, literatura e na gestão de projetos em Linguagens e Ciências Humanas.

