por Anna Leticia Epaminondas
Documentário do Ministério do Esporte celebra a Seleção de 1988; histórias de Sônia Roque, Lindismar Araújo e Nayara Morais mostram como essa mesma luta se repetiu Brasil afora.

Seleção Brasileira de Futebol Feminino
Foram 38 anos de espera até que o Brasil dissesse, oficialmente, obrigada. Na última terça-feira (23), em Brasília, o Ministério do Esporte reuniu treze jogadoras da primeira Seleção Brasileira feminina de futebol – aquela que disputou o Torneio Experimental realizado na China, em 1988 – para o lançamento do documentário Brasil 88 – Depois do Silêncio. A sessão, no Cine Brasília, foi acompanhada por cerca de 400 estudantes da rede pública e reforçou o compromisso de reconstruir, peça por peça, a memória de um esporte que durante décadas foi proibido, silenciado e apagado das páginas oficiais da história esportiva do país.
O ministro do Esporte, Paulo Henrique Cordeiro, chamou as jogadoras de heroínas e afirmou que o trabalho realizado por elas não pode ser esquecido, mas celebrado como uma semente que segue dando frutos. A fala ganha peso quando se olha para o calendário: em 2027, o Brasil sediará a Copa do Mundo Feminina da FIFA, e o país tenta, ao mesmo tempo, projetar o futuro da modalidade e reparar uma dívida histórica com quem a manteve viva quando quase ninguém apostava nela.
Para as próprias atletas, o gesto chegou tarde, mas chegou. A ex-atacante Roseli de Belo lembrou que aquela geração carrega a história da proibição, da resistência e das dificuldades, e que, mesmo sem esperar mais por reconhecimento, sempre soube que representou o Brasil com dignidade. Já a zagueira Sandra, que exibiu a medalha de bronze conquistada na China em 1988, resumiu o sentimento comum: 38 anos de espera por um momento que, segundo ela, ficou lindo de ver materializado em documentário.
Uma proibição que atravessa gerações
Nem Sônia Roque nem Lindismar Araújo estiveram naquele time que embarcou para a China em 1988. Mas as duas viveram, em seus estados, uma versão local da mesma história que o documentário do Ministério do Esporte agora tenta resgatar em nível nacional. É o que mostra o livro-reportagem Encontro: histórias, olhares e sonho atravessados pelo futebol de mulheres, produzido pelas estudantes Anna Letícia Epaminondas e por Lara Fabian Costa e Silva Guimarães como trabalho de conclusão do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Goiás. Ao longo de quinze perfis, o livro reúne relatos de mulheres que, cada uma à sua maneira, também driblaram a proibição e a invisibilidade para manter o futebol feminino de pé em times de várzea e seleções estaduais espalhados pelo Brasil.
A proibição formal do futebol de mulheres não nasceu isolada: ela é, segundo a historiadora Margareth Rago, reflexo das complexas relações de poder que estruturam uma sociedade de origem patriarcal, e a própria forma como a história é contada carrega sempre o olhar e a subjetividade de quem a narra.
No início do século XX, a presença de mulheres no futebol foi duramente combatida por ser vista como afronta à feminilidade esperada da época, já que o corpo feminino era considerado frágil demais para a “virilidade” que o esporte exigiria. Esse pensamento resultou em intervenção direta do Estado: o Decreto-Lei nº 3.199, de 1941, determinava em seu artigo 54 que “às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza”, texto que, embora não citasse o futebol nominalmente, foi usado para enquadrá-lo entre as modalidades consideradas inadequadas às mulheres.
A historiadora Aira Bonfim, em seu livro “Futebol Feminino no Brasil: entre festas, circos e subúrbios, uma história social”, explica que a ausência de mulheres nas mesmas fontes de imprensa que consolidaram o futebol masculino ajudou a naturalizar a ideia de que o esporte pertencia exclusivamente aos homens, tanto nas práticas individuais quanto coletivas.

Do Acre à Paraíba: o futebol como resistência brasileira
É dentro desse cenário que a trajetória de Sônia Roque ganha sentido. Hoje com 58 anos, ela é a única acreana a integrar a Seleção Brasileira Feminina e também a participar das Olimpíadas de Atlanta em 1996, e joga desde antes de o futebol de mulheres deixar de ser crime. Em 1965, já sob a Ditadura Militar, a proibição foi reforçada pela Deliberação nº 7 do Conselho Nacional de Desporto, que vetou explicitamente a prática do futebol por mulheres, situação que só mudaria em 1979, com a revogação da interdição.
Como observa a pesquisadora Silvana Goellner, a proibição impediu por décadas que clubes investissem em políticas de inclusão das mulheres no esporte, o que explica por que a participação feminina, ainda que existente desde o início do século XX, permaneceu tão menor que a masculina, por que uma trajetória como a de Sônia, vinda do Acre, é também um feito geográfico, não apenas esportivo.
A mesma lógica de resistência aparece, com outro sotaque, na história de Lindismar Araújo, a Linda, uma das pioneiras do futebol feminino paraibano. Nascida em 1964 em Cajazeiras, Linda cresceu em um lar onde o campo era território exclusivo dos homens. Mesmo assim, ainda menina, Linda ajudou a fundar a seleção feminina de Cajazeiras, em 1979, o mesmo ano em que a proibição nacional ao futebol de mulheres foi oficialmente revogada.
Em 1981 foi convocada para o teste da Seleção Paraibana e se tornou titular, tornando-se uma das pioneiras na busca por igualdade no futebol do estado. Hoje, aos 61 anos, comanda uma escolinha voluntária que já formou mais de 100 atletas na zona norte de Cajazeiras, onde é conhecida como “Tia Linda”. Segundo ela, é o mesmo amor que a fez insistir décadas atrás: “O futebol é para todos, para quem ama, para quem gosta, para quem quer.”
É em grande parte graças a atletas como ela que a Seleção Paraibana Feminina chegaria, muitos anos mais tarde, pela primeira vez a uma final da Taça das Favelas. Para Bonfim, esse tipo de trajetória é a prova de que o futebol feminino pode ser entendido como uma cultura de fresta, que driblou o que era tido como normativo e permitiu que mulheres redefinissem suas próprias estratégias de resistência: apesar de todo o preconceito da época, “as mulheres jogaram bola e ainda jogam”.
A geração que não precisou driblar a lei

Se Sônia e Lindismar representam o Brasil que jogou apesar da proibição, Nayara Ester de Andrade representa o Brasil que já nasceu sem precisar driblá-la. Paraibana como Linda, mas com apenas 14 anos, Nayara descobriu o futebol brincando na rua com o irmão e hoje mora no alojamento da Ferroviária, um dos maiores times femininos do país, em São Paulo.
Quando perguntada se teve receio de se mudar sozinha para tão longe, respondeu sem titubear: “Nenhum. Oxe, eu vou, vou me embora pegar o meu beco.” Enquanto palavras como proibição e resistência atravessam as histórias de Sônia e Lindismar, na trajetória de Nayara predominam liberdade, alegria e possibilidade. Ela escolheu o futebol tendo à disposição um caminho que essas mulheres, décadas antes, abriram na marra.
É esse contraste, entre quem lutou para que jogar deixasse de ser proibido e quem hoje simplesmente joga, que dá a exata medida do que significa, também, uma Seleção Brasileira ser homenageada 38 anos depois de sua estreia.
Copa do Mundo Feminina de 2027
O paralelo entre a homenagem oficial em Brasília e essas três trajetórias é o retrato de um mesmo processo histórico visto de ângulos diferentes. De um lado, o Estado que, décadas depois de proibir, reconhece; de outro, o jornalismo literário que foi a campo escutar quem viveu essa proibição na pele – e quem, como Nayara, colhe hoje os frutos de uma resistência que não é sua, mas que também lhe pertence. É esse encontro entre memória institucional e memória individual que, tanto no documentário do Ministério do Esporte quanto no livro-reportagem, aponta para o mesmo horizonte: a Copa do Mundo Feminina de 2027, que o próprio governo já trata como marco de um legado iniciado por essas pioneiras.
Reconhecer essas mulheres, seja em uma cerimônia oficial em Brasília, seja nas páginas de um livro-reportagem universitário, é afirmar que a história do futebol feminino brasileiro não começou nos estádios lotados de hoje, mas nos corpos, nas memórias e na teimosia de quem insistiu em jogar quando jogar era, literalmente, proibido.

