Dor crônica afeta cerca de 40% dos brasileiros e desafia a saúde pública. Condição vai além do sofrimento físico, compromete a saúde mental, reduz a qualidade de vida e está entre as principais causas de incapacidade e afastamentos do trabalho

Quatro em cada dez pessoas, convivem com algum tipo de dor crônica, condição caracterizada pela persistência dos sintomas por mais de três meses e que, segundo o Ministério da Saúde, representa um importante problema de saúde pública por comprometer a qualidade de vida, limitar atividades cotidianas, reduzir a autonomia e favorecer o desenvolvimento de transtornos como ansiedade e depressão, além de provocar impactos econômicos relacionados à perda de produtividade e afastamentos do trabalho.

Apesar de sua alta prevalência, a dor crônica ainda é cercada por desinformação e frequentemente tratada apenas como um sintoma isolado, embora exija diagnóstico preciso e acompanhamento contínuo para lidar com suas manifestações mais frequentes, que incluem a fibromialgia, a lombalgia, a enxaqueca crônica e as dores musculoesqueléticas.

A dor crônica engloba condições frequentes como a fibromialgia, a lombalgia, a enxaqueca crônica e diversas dores musculoesqueléticas. O seu impacto, contudo, vai muito além do sofrimento físico:

  • Saúde Mental: A convivência diária com o desconforto altera a química cerebral e a percepção do paciente sobre o mundo. Como explica a psicóloga Jordana Ribeiro, a falta de acolhimento gera um ciclo em que o sofrimento emocional agrava a dor física, alimentando quadros de ansiedade, depressão, estresse crônico e isolamento social.
  • Impacto Econômico: Por limitar a autonomia e as atividades cotidianas, a dor persistente está entre as principais causas de licenças médicas, afastamentos prolongados do trabalho e aposentadorias por incapacidade, reduzindo a produtividade e sobrecarregando os sistemas de saúde.

“A dor crônica modifica a forma como a pessoa se relaciona com o mundo, com sua rotina e consigo mesma. Quando não há acolhimento adequado, o sofrimento emocional tende a se intensificar e criar um ciclo difícil de romper”, explica.

O Marco Legal: A Lei nº 15.422/2026

Para romper o silêncio e o preconceito que cercam a condição, foi sancionada a Lei nº 15.422, de 3 de junho de 2026. Essa legislação marca uma virada histórica na forma como o Estado brasileiro lida com o problema, estabelecendo dois pilares fundamentais:

  1. Direito ao Atendimento Integral: A lei institui diretrizes básicas que asseguram ao paciente com dor crônica o direito de receber assistência completa e multidisciplinar na rede pública, incluindo o acesso claro a informações sobre os riscos e efeitos colaterais de cada tratamento.
  2. Julho Verde: Fica instituído o dia 5 de julho como o Dia Nacional de Conscientização e Enfrentamento da Dor Crônica. A data, simbolizada pela cor verde, obriga o poder público a realizar campanhas anuais de esclarecimento nos meios de comunicação para incentivar o diagnóstico precoce e combater a desinformação.

Avanços no Atendimento do SUS

O Sistema Único de Saúde (SUS) vem transformando o modelo de tratamento para acompanhar a nova legislação. Os principais avanços estruturais incluem:

  • Abordagem Multidisciplinar: O foco mudou do tratamento puramente medicamentoso para equipes integradas. O cuidado agora reúne médicos, psicólogos, fisioterapeutas e outros profissionais, atuando de forma conjunta para devolver a autonomia e preservar a saúde mental do indivíduo.
  • Padronização pelo PCDT: O atendimento integral é respaldado pelo Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) da Dor Crônica do Ministério da Saúde. Esse protocolo unifica e padroniza as regras de diagnóstico e manejo da dor em todo o território nacional, garantindo terapias mais seguras e coordenadas.
  • Foco na Linha de Frente: O fortalecimento da Atenção Primária busca identificar os pacientes nas fases iniciais da cronificação da dor, evitando que o quadro evolua para níveis severos de incapacidade.

Com o diagnóstico precoce, a informação clara e o amparo da nova lei, o objetivo da saúde pública passa a ser não apenas estancar o sintoma, mas devolver qualidade de vida e dignidade social a milhões de cidadãos.



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