por Flávia Morais

Na correria dos dias, comer frequentemente vira apenas mais uma tarefa a ser cumprida na lista de pendências. A marmita devorada em frente ao computador, o café tomado em pé no meio da sala ou a rolagem infinita de telas durante o jantar roubam de nós algo precioso: a capacidade de sentir prazer e presença naquilo que nos nutre.

Este artigo é um convite ao reencontro com os sentidos. Uma proposta para transformar a refeição na oportunidade perfeita para voltar para si, reconectar-se com os próprios ritmos e construir uma relação mais leve, gostosa e acolhedora com a comida. E não existe lugar mais bonito para resgatar esse afeto do que ao redor da mesa.

Onde a Comida Encontra o Afeto

Resgatar a mesa como um ritual não tem a ver com etiqueta rigorosa, louças caríssimas ou gastronomia complexa. Tem a ver com intenção. É sobre escolher fazer do momento de comer um porto seguro, um parêntese no dia onde o único compromisso é estar inteiramente presente.

Quando sentamos à mesa dispostos a viver aquele momento, a comida ganha outra dimensão. O aroma do tempero que perfuma a casa, o vapor subindo do prato, as texturas e as memórias afetivas transformam um ato puramente mecânico em uma verdadeira experiência de carinho e prazer.

Quando o assunto é a boa gastronomia de memória, temos referências inesquecíveis: uma delas é minha avó – ou seria a sua? -, e outra é a cozinha feita com alma e propósito, como a da querida Chef Carô. Conversando com ela sobre essa linha tênue entre a técnica e a emoção, a provocamos com uma reflexão: ”A técnica é essencial. Ela é o que nos dá consistência, respeito pelo ingrediente e excelência na execução. Mas um prato só se torna memorável quando consegue despertar alguma emoção. Um prato que abraça é aquele que faz a pessoa desacelerar, lembrar de alguém, sentir pertencimento. Ele não alimenta apenas o corpo, mas também a memória e o coração. A técnica encanta; o afeto permanece”.

Essa busca constante por conectar técnica e sentimento nos leva a compreender que cada refeição pode ser um ato deliberado de desaceleração e afeto interpessoal.

Experiências para Cultivar o Prazer de Estar à Mesa

Criar uma atmosfera de afeto não exige grandes revoluções no cotidiano; começa com pequenos gestos que transformam a refeição em um abraço. Aproveitamos um delicioso bate-papo com a Chef Carô para entender como transformar o simples ato de alimentar-se em uma experiência singular e profundamente humana, afinal, sentar-se à mesa é uma das formas mais bonitas de criar memórias.

Durante a nossa conversa, a Chef Carô compartilhou suas percepções sobre o papel social e emocional da alimentação:

Bora!: Carô, você falou sobre desacelerar e isso nos faz refletir o quão estamos vivendo um mundo cada vez mais apressado, onde as refeições muitas vezes acontecem na frente de telas ou em pé, o que significa a resistência e o ato político de “sentar-se à mesa”?

Carô: Sentar-se à mesa é um gesto de presença. É escolher olhar para quem está ao lado, escutar, compartilhar o tempo. Acho que existe, sim, um aspecto político nisso: decidir desacelerar em uma sociedade que nos incentiva a produzir o tempo inteiro. A mesa nos lembra que somos seres de relação. Comer deixou de ser apenas uma necessidade fisiológica; é uma oportunidade de construir vínculos, fortalecer famílias e criar memórias.

Bora!: A mesa é um espaço de trocas, encontros e até de cura. Como você percebe a energia das pessoas quando elas se reúnem para compartilhar uma refeição preparada por você?

Carô: Essa talvez seja a parte mais bonita do meu trabalho. É muito comum ver pessoas chegarem cansadas, preocupadas, cada uma no seu ritmo, e aos poucos a mesa vai transformando aquele ambiente. As conversas ficam mais leves, surgem risadas, histórias, silêncios confortáveis. A comida cria uma espécie de licença para as pessoas se conectarem. Eu sempre digo que restaurante não vende apenas comida. Nós oferecemos um espaço para que a vida aconteça.

Esses encontros que acontecem ao redor do prato ganham contornos ainda mais especiais quando temperados pelas tradições e singularidades de cada região, e nós goianos sabemos muito bem como fazer isso.

A Afetividade com Sabor de Goiás

A gastronomia goiana carrega em sua essência a arte do acolhimento. Falar de afeto em Goiás é falar de mesas fartas, panelas de ferro no fogão e da alegria genuína de ter a casa cheia. Nossa identidade culinária é moldada por uma generosidade que se manifesta tanto no gesto de servir quanto na riqueza única dos ingredientes que a nossa terra nos dá.

O Cerrado entrega uma paleta sensorial inconfundível: o aroma marcante do pequi, o amargor sutil e elegante da guariroba, o crocante do baru e a doçura vibrante das nossas frutas nativas. Esses elementos não são apenas alimentos; são patrimônios afetivos que carregam histórias, saberes tradicionais e a própria memória cultural do nosso povo.

Segundo a Chef Carô, “O goiano tem uma hospitalidade muito bonita. Existe uma generosidade quase instintiva em colocar mais uma cadeira na mesa e perguntar se a pessoa já comeu. Receber bem faz parte da nossa cultura”. E ela completa: “Se eu tivesse que traduzir essa afetividade em um menu, começaria com um caldo servido sem cerimônia, daqueles que já aquecem a conversa. Depois, um arroz bem feito, uma boa carne, legumes da estação e uma salada fresca – comida que respeita o tempo dos ingredientes e das pessoas. E terminaria com um doce compartilhado, porque em Goiás a sobremesa quase sempre vem acompanhada de um café e de mais alguns minutos de conversa. O protagonista nunca é apenas o prato; é a mesa cheia”.

Compreender essa essência de acolhimento nos convida a resgatar a real preciosidade que reside nesses instantes compartilhados.

O Valor Imensurável das Memórias ao Redor da Mesa

Mais do que o prato servido, o verdadeiro valor de uma refeição compartilhada reside nos laços que ali se fortalecem. É no espaço da mesa que as conversas fluem sem pressa, que os sorrisos são trocados e que os laços familiares e de amizade se consolidam. Em um tempo marcado por conexões virtuais e efêmeras, resgatar esses rituais diários é um ato de autocuidado e de amor com aqueles que cercam a nossa vida. São esses instantes desacelerados que ficam gravados na memória afetiva, tornando-se o refúgio para onde sempre queremos voltar.

Para fechar nosso encontro com a Chef Carô de forma inspiradora e prática, deixamos duas reflexões finais:

Bora!: Carô, para quem perdeu a rotina de cozinhar com calma ou de reunir a família em volta da mesa, qual é o primeiro passo para resgatar esse prazer no dia a dia?

Carô: Acho que o segredo é não transformar isso em mais uma obrigação. Não precisa começar preparando um grande almoço de domingo. Basta escolher um dia da semana para desligar a televisão, guardar o celular e fazer uma refeição simples juntos. Pode ser uma sopa, uma massa ou um café da manhã mais caprichado. O importante é criar pequenos rituais. O afeto não nasce da complexidade da receita, mas da intenção de estar presente.

E também perguntamos à chef: “Para quem você gostaria de cozinhar hoje, com todo o afeto do mundo, e o que serviria nessa mesa?” A resposta não veio acompanhada de um único nome, mas do barulho gostoso de uma mesa cheia… Uma homenagem cheia de carinho e generosidade que transborda pelas margens, e que nós, da Revista Bora!, fazemos questão de servir a você: 

Carô: Hoje eu cozinharia para todas as pessoas que já passaram pela minha vida e me ensinaram alguma coisa: minha família, meus amigos, minha equipe e tantos clientes que, ao longo dos anos, deixaram de ser apenas clientes para fazer parte da história do restaurante.

Serviria uma mesa pensada com carinho, em que cada preparo contasse uma história e cada ingrediente fosse valorizado em sua integralidade. Gosto de uma cozinha que enxerga beleza em todas as partes do alimento, que extrai dele o máximo de sabor e honra o trabalho de quem plantou, colheu e o levou até a nossa mesa.

Porque, no fim das contas, é isso que mais me emociona na gastronomia: perceber que a comida é apenas o começo. O verdadeiro banquete acontece nos encontros que ela torna possíveis.



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