por Carla Lacerda e Anna Morais
30/09/2026
De santuários que recebem milhares de fiéis a eventos com caravanas de diferentes partes do país, turismo religioso movimenta comércio, alimentação, transporte e serviços na capital

Domingo, manhã de sol forte. Eram ainda 8 horas, mas o calor não dava trégua naquele final de setembro em Goiânia. Mesmo assim, pouco a pouco, os fiéis começam a chegar à Rua C-14, na Vila Canaã. Vêm de Rio Verde, Goianira, Bom Jesus de Goiás, Goianésia. De outros estados. E também de diversos bairros da capital. O destino é o prédio que recebe cerca de 40 mil pessoas por semana: o Santuário Basílica Sagrada Família.
“Sempre que tenho a oportunidade de vir a Goiânia, participo da missa na Sagrada Família. Minha filha tem até uma hamburgueria aqui perto, em frente ao Senai”, conta a dona de casa Sônia Adriana Ferreira, de 53 anos, moradora de Goianésia.

Turista
Já o autônomo Wemerson Alves, de 29 anos, participa das missas no local há 15 anos. “Meus pais e tios sempre vieram aqui. É uma celebração diferente.”
O reitor do Santuário Basílica Sagrada Família e coordenador da Pastoral do Turismo da Arquidiocese de Goiânia, padre Rodrigo de Castro, explica que a procura pela igreja está relacionada tanto à oferta de atendimento religioso quanto à própria consolidação do local como destino de turismo religioso.

Reitor do Santuário Basílica Sagrada Família
Foto: Anna Morais
“O santuário foi se tornando uma referência para muitas pessoas que procuram a confissão, a adoração ao Santíssimo e outros momentos de oração. Como a igreja permanece aberta durante a madrugada, também há pessoas que procuram o espaço nesse período. A loja do santuário também funciona durante a madrugada, atendendo aos visitantes que chegam nesse horário”, detalha.
Ao lado do santuário, outro prédio da Arquidiocese de Goiânia abriga a Loja Oficial Santuário Sagrada Família e estabelecimentos comerciais, como cafés e franquias de alimentação. A gerente da loja, Aparecida Maria de Jesus, que trabalha há sete anos no local, conta que os sábados e domingos são os dias de maior movimento. Entre os produtos mais procurados estão terços, chaveiros e imagens religiosas.

“No final do ano, o faturamento chega a dobrar. Estamos sempre recebendo pessoas de outros estados também, que gostam de conhecer o relicário e a sala de velas, onde está instalada a pia de água benta de Nossa Senhora de Lourdes”, informa Cida.
Segundo padre Rodrigo de Castro, também tem crescido a presença de estrangeiros. “Recebemos visitantes de outros países, especialmente por causa das redes sociais. Isso mostra a força da comunicação. Quando influenciadores e outras pessoas divulgam o santuário, há uma repercussão que desperta o interesse de novos visitantes, que vêm conhecer o local.”
E quem quer aproveitar o turismo religioso para também conhecer a gastronomia goiana não precisa ir muito longe.

Foto: Anna Morais
Na calçada antes de chegar ao santuário, barraquinhas oferecem opções para quem entra ou sai. Tem as coxinhas da Michelly – frango com catupiry, costela ou carne com banana-da-terra. Nas vizinhas, há pastel, pudim e churros.
O agricultor Ailton Garcia, de 55 anos, gosta dos pães de queijo, das coxinhas e dos doces. E quase nunca deixa o santuário sem levar uma lembrancinha para os familiares que ficaram em Bom Jesus de Goiás.

Rota da fé
“O maior número de visitantes chega por meio das caravanas. Em média, são mais de 50 caravanas que chegam a Trindade a cada fim de semana e aproveitam para visitar o Santuário Basílica Sagrada Família”, afirma padre Rodrigo.
Segundo ele, os visitantes permanecem em Goiânia, em média, de três a quatro dias. Muitas vezes, a estadia está associada a outros destinos turísticos, como Caldas Novas, Trindade, Pirenópolis, Cidade de Goiás e Brasília e seu entorno.
Quem normalmente visita o Santuário Basílica do Divino Pai Eterno, em Trindade, e viaja para Goiânia para conhecer a Basílica Sagrada Família também tem outro destino na capital: a Basílica Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, conhecida popularmente como Matriz de Campinas. De acordo com o coordenador da Pastoral do Turismo da Arquidiocese de Goiânia, passam mais de 15 mil pessoas às terças-feiras pelo local, além do público que participa das demais celebrações realizadas durante a semana e aos domingos. “Os peregrinos que vão à Matriz são mais noveneiros”, ressalta.

A teóloga e locutora-apresentadora Aparecida Damacena, 61 anos, nasceu em Campinas e frequenta a Matriz desde a infância. Hoje, ela é também coordenadora de pastoral da Basílica e diz que percebe constantemente a movimentação de turistas na igreja.
“Não fechamos, então, todos os dias vêm pessoas aqui. Os fiéis fazem suas devoções, conhecem o velário e, nas novenas de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, às terças-feiras, é possível ver gente de outros estados, como Mato Grosso, Minas Gerais e São Paulo. Esses dias veio aqui uma moça que mora em Portugal.”

Teóloga e coordenadora de pastoral da Basílica Nossa Senhora do Perpétuo Socorro
Aparecida ainda conta que muitos turistas aproveitam a passagem pelo bairro para conhecer a famosa pamonha goiana – assada, frita ou cozida -, além da empada e dos discos de carne. Ela destaca a solicitude dos comerciantes com os clientes. “Eu não como carne e lembro de, na infância, a proprietária de um estabelecimento aqui perto fazer abobrinha batida, refogada no fogão a lenha, com arroz branco para mim. Ela dizia: ‘Minha filha, você não come carne, vou fazer essa comida para você’.”
Proprietário da Pamonharia Meiry, Cristiano Pereira da Silva, confirma o movimento do turismo religioso na região de Campinas. Ele diz que normalmente vende uma média de 150 pamonhas por dia. Às terças-feiras, quando há a novena na Basílica, a produção dobra.
“Aqui já vieram turistas do Maranhão, Pará, Rio Grande do Sul… até de fora do país, como Estados Unidos, Itália, França e Inglaterra”, revela. “Teve uma moça que pedia para eu congelar as pamonhas e levava para vender lá na Europa”, acrescenta. Segundo Cristiano, a pamonha dele chegou até Tóquio. “Acho que os japoneses gostaram”, diz, rindo ao contar o caso.
Eventos

Mas não são apenas as igrejas que atraem milhares de fiéis a Goiânia. A capital também é conhecida por realizar grandes eventos religiosos. Entre os evangélicos, há a Conferência Radicais Livres, da Igreja Videira, que reuniu, em sua última edição, em setembro de 2026, mais de 13 mil pessoas no Goiânia Arena. Na seara católica, o Totus Tuus, festival em homenagem a Maria, registrou crescimento de público. Entre 2025 e 2026, o número de participantes saltou de 60 mil para 100 mil – alta de 66,7%. Na última edição, 75 mil pessoas acompanharam o evento dentro do Estádio Serra Dourada e outras 25 mil na área externa. De acordo com os organizadores, mais de 500 caravanas, de diferentes partes do país, vieram a Goiânia.
Pesquisas realizadas pela Agência Estadual de Turismo (Goiás Turismo) ajudam a traçar o perfil desse público e a identificar os gastos associados à participação no evento. No levantamento de 2025, que ouviu 230 pessoas, 60,87% dos entrevistados eram de Goiânia e 39,13% vinham de outras localidades. Entre os participantes de fora da capital, a maioria – 83,33% – fez uma viagem de bate e volta. Outros 15,56% ficaram na casa de amigos ou parentes e 1,11% se hospedou em hotel ou pousada.
A presença das caravanas também aparece na pesquisa: 28,26% dos entrevistados chegaram ao evento em ônibus de excursão ou caravana, enquanto 53,04% utilizaram veículo próprio. O levantamento identificou participantes do Distrito Federal e de outros estados, além de Goiás: Mato Grosso, São Paulo, Rondônia, Rio Grande do Sul, Pará, Bahia e Minas Gerais.
O deslocamento gera consumo. Na pesquisa realizada em 2024, o gasto médio geral registrado foi de R$ 153,40 por entrevistado. O levantamento detalhou ainda os desembolsos por categoria, considerando, nesse caso, apenas os participantes que declararam despesas em cada uma delas. Entre aqueles que tiveram gastos com hospedagem, a média foi de R$ 333. Para compras, o valor chegou a R$ 142; transporte e combustível, R$ 132,08; e alimentação, R$ 102,53.

“A fé movimenta as pessoas, e tanto o Estado de Goiás quanto a cidade de Goiânia apresentam grande potencial para o turismo religioso, além de uma demanda potencial para os próximos anos. As pesquisas mostram consumo associado aos eventos religiosos e deslocamento de visitantes de diferentes cidades, estados e até de outros países para Goiânia, com reflexos em setores como alimentação, transporte, comércio, serviços e hospedagem”, avalia a coordenadora do Observatório do Turismo do Estado de Goiás, Amanda Alves Borges.
Para o padre Rodrigo de Castro, reitor do Santuário Basílica Sagrada Família e coordenador da Pastoral do Turismo da Arquidiocese de Goiânia, eventos como o Totus Tuus contribuem para o fortalecimento do turismo religioso. “O turismo não é feito de forma isolada. É um trabalho conjunto, que envolve diferentes destinos, entidades e segmentos.”
O gerente de Negócios e Relacionamento da Câmara de Dirigentes Lojistas de Goiânia (CDL), Wanderson Lima, afirma que os grandes eventos religiosos têm um papel importante para a economia da cidade e seus efeitos não se limitam ao local onde ocorrem.
“O impacto não fica restrito àquele local onde acontece o evento religioso, ele se espalha pela economia, gira em diversos setores. A hotelaria, por exemplo, é beneficiada, assim como restaurantes, bares, lanchonetes, supermercados, postos de combustíveis, motoristas de aplicativo, táxis, entre outros serviços”.
Wanderson também destaca outros reflexos desse aumento de fluxo de pessoas na cidade em razão do turismo religioso. Segundo ele, muitos turistas aproveitam para visitar os polos comerciais de Goiânia e consomem produtos como roupas, calçados, artigos religiosos e presentes. “Por isso, esses eventos funcionam como verdadeiros catalisadores da economia local”, reforça.
Outro ponto importante, acrescenta, é que esses visitantes trazem recursos financeiros de fora de Goiânia. “Ou seja, não é um dinheiro que já circula na nossa economia, é um consumo adicional provocado pela chegada de outras pessoas. E ainda existe aquele efeito a longo prazo: a pessoa que vem a Goiânia pode voltar futuramente com a família para fazer compras ou participar de outros eventos”, pontua o gerente da CDL.
Potencial para 1 milhão
“Estima-se um público de aproximadamente 10 mil pessoas, entre caravanas e participantes que chegarão de avião. Caso o Papa Leão XIV aceite o convite para participar do Congresso, a mobilização poderá ganhar uma dimensão extraordinária, com potencial para alcançar até 1 milhão de pessoas.”

A projeção é do coordenador da Pastoral do Turismo da Arquidiocese de Goiânia, padre Rodrigo de Castro, e refere-se ao 19º Congresso Eucarístico Nacional, que será realizado na capital em 2027. A expectativa ajuda a dimensionar o potencial do turismo religioso em Goiânia, impulsionado tanto por eventos de grande porte quanto pelo fluxo de visitantes aos templos e santuários.
“É um movimento que tem crescido bastante. Temos o turismo de terceira idade, o turismo dos romeiros, mas também percebemos um crescimento significativo na presença de casais jovens nos destinos religiosos e nos santuários”, afirma.
A Goiás Turismo também identificou, em seus estudos, sinais dessa demanda potencial. Durante a ExpoCatólica, realizada neste ano, em São Paulo, 55% das 320 pessoas entrevistadas nunca tinham visitado Goiás, mas manifestaram vontade de conhecer o Estado. Questionados sobre o interesse em participar do Congresso Eucarístico Nacional em Goiânia, em 2027, caso o Papa Leão XIV esteja presente, 86% disseram ter muito interesse.
O presidente da Goiás Turismo, Paulo Henrique Rodrigues Silva, avalia que “Goiânia vem demonstrando uma forte vocação para o turismo religioso, tanto pelo fluxo de visitantes em seus santuários quanto pela realização de grandes eventos que atraem caravanas de várias partes do país. Esse movimento fortalece o turismo da capital, gera consumo no comércio e nos serviços e cria oportunidades para toda a cadeia turística.”

Presidente da Goiás Turismo
Para a CDL Goiânia, o turismo religioso não deve ser visto apenas como uma questão de fé ou de cultura, mas também como oportunidade de geração de emprego, renda e negócios para a cidade. “É uma atividade que beneficia desde as grandes empresas até os pequenos comerciantes, ambulantes, autônomos e prestadores de serviços.”
Mateus Moura é quase vizinho de Cristiano, da Pamonharia Meiry, em Campinas. Há sete anos, deixou um emprego comissionado para ajudar a mãe a abrir a Art Fé, loja de artigos religiosos em frente à Basílica Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Não se arrepende. Às terças-feiras, dia da novena, o fluxo de fiéis se reflete diretamente nas vendas. “Chega a representar 70% do meu faturamento semanal”, afirma.
Segundo ele, a força desse fluxo ficou ainda mais evidente durante a pandemia, quando as vendas das terças-feiras ajudaram a manter o pequeno comércio.
“Por ser uma novena muito conhecida há muito tempo, ela sustentou a gente por causa desse movimento que, apesar de pouco, tinha. A terça-feira é poderosa.”


