De santuários que recebem milhares de fiéis a eventos com caravanas de diferentes partes do país, turismo religioso movimenta comércio, alimentação, transporte e serviços na capital

Domingo, manhã de sol forte. Eram ainda 8 horas, mas o calor não dava trégua naquele final de setembro em Goiânia. Mesmo assim, pouco a pouco, os fiéis começam a chegar à Rua C-14, na Vila Canaã. Vêm de Rio Verde, Goianira, Bom Jesus de Goiás, Goianésia. De outros estados. E também de diversos bairros da capital. O destino é o prédio que recebe cerca de 40 mil pessoas por semana: o Santuário Basílica Sagrada Família.

“Sempre que tenho a oportunidade de vir a Goiânia, participo da missa na Sagrada Família. Minha filha tem até uma hamburgueria aqui perto, em frente ao Senai”, conta a dona de casa Sônia Adriana Ferreira, de 53 anos, moradora de Goianésia.

Já o autônomo Wemerson Alves, de 29 anos, participa das missas no local há 15 anos. “Meus pais e tios sempre vieram aqui. É uma celebração diferente.”

O reitor do Santuário Basílica Sagrada Família e coordenador da Pastoral do Turismo da Arquidiocese de Goiânia, padre Rodrigo de Castro, explica que a procura pela igreja está relacionada tanto à oferta de atendimento religioso quanto à própria consolidação do local como destino de turismo religioso.

“O santuário foi se tornando uma referência para muitas pessoas que procuram a confissão, a adoração ao Santíssimo e outros momentos de oração. Como a igreja permanece aberta durante a madrugada, também há pessoas que procuram o espaço nesse período. A loja do santuário também funciona durante a madrugada, atendendo aos visitantes que chegam nesse horário”, detalha.

E quem quer aproveitar o turismo religioso para também conhecer a gastronomia goiana não precisa ir muito longe.

Na calçada antes de chegar ao santuário, barraquinhas oferecem opções para quem entra ou sai. Tem as coxinhas da Michelly – frango com catupiry, costela ou carne com banana-da-terra. Nas vizinhas, há pastel, pudim e churros.

“Não fechamos, então, todos os dias vêm pessoas aqui. Os fiéis fazem suas devoções, conhecem o velário e, nas novenas de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, às terças-feiras, é possível ver gente de outros estados, como Mato Grosso, Minas Gerais e São Paulo. Esses dias veio aqui uma moça que mora em Portugal.”

“A fé movimenta as pessoas, e tanto o Estado de Goiás quanto a cidade de Goiânia apresentam grande potencial para o turismo religioso, além de uma demanda potencial para os próximos anos. As pesquisas mostram consumo associado aos eventos religiosos e deslocamento de visitantes de diferentes cidades, estados e até de outros países para Goiânia, com reflexos em setores como alimentação, transporte, comércio, serviços e hospedagem”, avalia a coordenadora do Observatório do Turismo do Estado de Goiás, Amanda Alves Borges.

“O impacto não fica restrito àquele local onde acontece o evento religioso, ele se espalha pela economia, gira em diversos setores. A hotelaria, por exemplo, é beneficiada, assim como restaurantes, bares, lanchonetes, supermercados, postos de combustíveis, motoristas de aplicativo, táxis, entre outros serviços”.

“Estima-se um público de aproximadamente 10 mil pessoas, entre caravanas e participantes que chegarão de avião. Caso o Papa Leão XIV aceite o convite para participar do Congresso, a mobilização poderá ganhar uma dimensão extraordinária, com potencial para alcançar até 1 milhão de pessoas.”

O presidente da Goiás Turismo, Paulo Henrique Rodrigues Silva, avalia que “Goiânia vem demonstrando uma forte vocação para o turismo religioso, tanto pelo fluxo de visitantes em seus santuários quanto pela realização de grandes eventos que atraem caravanas de várias partes do país. Esse movimento fortalece o turismo da capital, gera consumo no comércio e nos serviços e cria oportunidades para toda a cadeia turística.”

Para a CDL Goiânia, o turismo religioso não deve ser visto apenas como uma questão de fé ou de cultura, mas também como oportunidade de geração de emprego, renda e negócios para a cidade. “É uma atividade que beneficia desde as grandes empresas até os pequenos comerciantes, ambulantes, autônomos e prestadores de serviços.”

Mateus Moura é quase vizinho de Cristiano, da Pamonharia Meiry, em Campinas. Há sete anos, deixou um emprego comissionado para ajudar a mãe a abrir a Art Fé, loja de artigos religiosos em frente à Basílica Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Não se arrepende. Às terças-feiras, dia da novena, o fluxo de fiéis se reflete diretamente nas vendas. “Chega a representar 70% do meu faturamento semanal”, afirma.

Segundo ele, a força desse fluxo ficou ainda mais evidente durante a pandemia, quando as vendas das terças-feiras ajudaram a manter o pequeno comércio.

“Por ser uma novena muito conhecida há muito tempo, ela sustentou a gente por causa desse movimento que, apesar de pouco, tinha. A terça-feira é poderosa.”

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