O Dia das Crianças, celebrado em 12 de outubro, é uma das datas mais aguardadas pelas famílias e também uma das mais marcadas pelo apelo ao consumo. Vitrines, propagandas e conteúdos digitais estimulam o desejo de compra desde cedo, e muitos pais se veem diante de um dilema: como dizer “não” sem gerar conflito e, ao mesmo tempo, ensinar algo de valor?

Os números ajudam a dimensionar o desafio. A pesquisa de Intenção de Compras da CNDL e do SPC Brasil, feita com consumidores das 27 capitais brasileiras em 2025, mostra que 70% planejavam ir às compras para a data, com gasto médio previsto de R$ 297. O mesmo levantamento aponta que 27% dos entrevistados admitem que costumam gastar mais do que podem nessa época, e 12% pretendiam deixar de pagar alguma conta para garantir os presentes. O desejo de agradar pode pesar no orçamento, e isso reforça a importância de conversar com as crianças sobre limites.
Como especialista em Educação Matemática, defendo que o dinheiro seja visto como parte do desenvolvimento das crianças, e não como um assunto restrito ao mundo adulto. A educação financeira começa muito antes de a criança ter o próprio dinheiro. Ela nasce nas situações do dia a dia, quando a criança percebe que escolher uma coisa significa abrir mão de outra.
Os conceitos matemáticos que sustentam as finanças, como comparar valores, somar, subtrair, estimar e planejar, podem ser trabalhados de forma lúdica. Jogos de mercadinho, brincadeiras de troco e a organização de uma “lojinha” em casa ajudam a construir noções de preço, quantidade e valor sem que a conversa pareça uma aula. Quando a criança participa da lógica do dinheiro brincando, ela passa a entender que os recursos são limitados e que toda escolha envolve decisão. Isso é matemática, mas também é preparação para a vida.

Para as famílias que querem aproveitar a data para introduzir o tema, vejo alguns caminhos. O primeiro é combinar tudo antes de sair de casa: definir com a criança um valor ou um número de itens evita o desgaste na hora da compra. Em seguida, vale envolvê-la na escolha, pedindo que compare opções e explique o que mais deseja, o que estimula o raciocínio e reduz a compra por impulso. Outra possibilidade é apresentar a poupança como meta. Um brinquedo mais caro pode virar um objetivo, com um cofrinho e uma contagem do quanto falta para alcançá-lo. Também ajuda explicar o orçamento com exemplos simples, mostrando que a família divide o dinheiro entre necessidades, como alimentação e moradia, e desejos. Assim, a criança compreende o “não” sem sentir rejeição. Por fim, recomendo valorizar experiências, já que um passeio ou uma brincadeira em família também é presente e mostra que afeto não depende de preço.
O tom da conversa faz diferença. O limite dito com carinho e com explicação é muito mais eficaz do que a proibição sem diálogo. A criança precisa entender o porquê, e o adulto precisa dar o exemplo. Se ela vê os pais planejando compras e evitando desperdícios, aprende pela prática.
Os professores também têm papel importante nesse processo. Ao incluir situações-problema do cotidiano financeiro nas aulas de Matemática, conectamos o conteúdo escolar à realidade dos estudantes e mostramos que aquilo que se aprende em sala serve para decidir, planejar e escolher melhor. Isso vale para todas as regiões do país, inclusive para as salas de aula do interior de Mato Grosso, onde atuo, e para as famílias que, em cada cidade, enfrentam o mesmo dilema diante das vitrines.
As primeiras experiências com dinheiro tendem a moldar a relação dos adultos com o consumo, o endividamento e o planejamento. Por isso, o Dia das Crianças pode ser mais do que uma data de presentes: pode ser o ponto de partida para hábitos financeiros saudáveis que acompanham a criança ao longo da vida.
Elielton Gregório de Lima é especialista em Educação Matemática e professor da Estácio.
Instagram: @elielt0n




